O Fusca na galáxia dos carros
Miguel Jorge
Se,
muitas vezes, a era entre a I Guerra Mundial, de 1914 a 1918, e a Grande
Depressão, em 1929, tem sido narrada em termos de luxuosos carros americanos,
melindrosas e cartolas, a época imediatamente anterior à II Guerra pode ser
descrita como um período que concretizou os sonhos de criadores geniais, como o
autodidata Ferdinand Porsche, o criador do Fusca, da Volkswagen. Ao contrário
dos demais fabricantes europeus de veículos, que em meados dos anos 20 ainda julgavam
o automóvel um artigo de luxo - e ao mesmo tempo em que os americanos Ramson E.
Olds e Henry Ford quebravam a cabeça para construir carros que atendessem a um
mercado de massa - Porsche pensava num carro prático, simples e barato.
Esse é, em resumo, o conteúdo
desse livro de Alexander Gromow, não só um apaixonado, mas como um profundo
conhecedor do Volkswagen automóvel e da Volkswagen AG, a fabricante desse
fenômeno do consumo.
Mas o livro não traz apenas a
saga desse veículo que muitos acharam de péssimo gosto, quando lançado - numa
época em que a fealdade dominava o mundo - mas que revolucionou a indústria
automotiva, rompendo todas as barreiras que impediam seu avanço, suscitou os
mais sisudos estudos nos idiomas mais inaccessíveis e impôs-se como um caso
único de aceitação popular em todo o mundo.
Um fenômeno, aliás, tão mais
impressionante quando se considera que o Fusca, que começou a ser projetado na
garagem da casa de Porsche (e que, depois, atenderia às ambições megalomaníacas
de Adolf Hitler, em pleno Terceiro Reich, rodando hoje, impávido, em todos os
países), faz parte definitivamente da história universal do século XX e
ingressa no novo milênio com imenso prestígio.
Esse sucesso é tão mais
inacreditável quando se percebe que a ligação fundamental do austríaco
Ferdinand Porsche – tão austríaco quanto o Führer Adolf Hitler – talvez fosse
mais com o carro do que com aquilo que se define hoje, algo nebulosamente, como
mercado consumidor de automóveis.
Mas esse livro vai além: num
pano de fundo, mostra como Hitler tentara buscar caminhos que pelo menos
equiparassem o seu país às nações desenvolvidas, durante o Terceiro Reich, e
como a Alemanha tentava se reerguer política, social e economicamente da
derrota na II Guerra Mundial a partir da primeira metade de 1948, sob o governo
de Konrad Adenauer, antigo prefeito de Colônia,
A partir da epopéia Volkswagen,
que se ramificou no Brasil, com efeitos benéficos e permanentes sobre a
indústria automotiva e a economia nacional, aqui se terá um retrato do País nos
anos 50 (em 1959, o primeiro Fusca nacional saiu da linha de produção), 60 e 70
(época do “milagre brasileiro”) até o pico de 1972, quando, após atingir vendas
de 223. 455 unidades, suas vendas cairiam para 44.456 unidades, em 1985. No
Brasil, o Fusca começou a se converter em realidade em 1949, época em que o
povo cantava nas ruas os sucessos carnavalescos "Chiquita Bacana", de
João de Barro, e fotos do carro já vinham saindo nas revistas ilustradas.
Nesse ano, a Volkswagen e a Chrysler fechariam acordo pelo qual a última
cederia suas concessionárias fora da América do Norte para revender Fuscas e a
Volkswagen completaria a oferta de carros Chrysler.
Ainda em 1949, quando todo se
mobilizavam para ver os jogos a Copa do Mundo, a empresa brasileira Companhia
Geral Distribuidora Brasmotor, hoje Multibrás, faria gestões junto à Chrysler
para vender Fuscas prontos no País e, logo em seguida, dar início à montagem
desses veículos, a partir de kits desmontados, os CKDs, para se chegar à
fábrica, em São Bernardo do Campo.
Embora, hoje, seja extremamente
difícil reconstituir todas as circunstâncias em que ocorreram essas
negociações, que levariam mais tarde à democratização do automóvel no País (há
diferentes versões de vários historiadores), o fato é que o Fusca – graças
também à identificação fácil da marca e do design – impôs seu estilo de uso
doméstico devido aos seus padrões de eficiência, economia, robustez e
qualidade.
Mas o que se conta nesse livro
não é também apenas a história desse veículo que fendeu de alto a baixo a
imagem do Brasil urbano, mas as dificuldades que precisou enfrentar em função
dos problemas econômicos do país, com inflação, recessão econômica e, em
particular, várias crises da indústria automobilística nacional.
Para se ter idéia da
importância da penetração do Fusca no País, bastaria lembrar que a indústria
automobilística, que produziu, durante anos, um milhão de carros/ano,
incentivada pelo lançamento dos carros populares (vendidos a US$ 7 mil) passou
a produzir 1,3 milhão de veículos, em 1993, depois que o presidente Itamar
Franco pediu a volta da fabricação do popular “Besouro” - e esse salto ocorreu
quase que de um ano para o outro (a produção do Fusca tinha sido paralisada em
1986).
Num setor onde as pesquisas nem
sempre são atualizadas e onde a história do País se perde por falta de quem se
dê ao trabalho de contá-la, o trabalho de Alexander Gromow, ex-presidente do
Clube do Fusca, pesquisador incansável e verdadeiro fanático por esse veículo e
pela marca – ganha importância fundamental para quem se dispõe a viajar na saga
do Fusca.
Sem esse trabalho, seria
impossível avaliar as repercussões econômicas e sociais do carro de Ferdinand
Porsche. Seria salutar e até indispensável, como o autor afirma modestamente na
introdução da obra, que os leitores que já tiveram um Fusca – presume-se que,
praticamente todos os brasileiros com mais de 40 anos tenham aprendido a
dirigir num Fusca – tornem-se também construtores da sua história, contribuindo
para tornar mais completa a pesquisa do fuscamaníaco Alexander Gromow. Afinal,
um livro, quando sai das mãos de quem o escreveu e publicou, passa a ser como
uma propriedade de seus leitores.
Certamente, também foi esse o
espírito do visionário, pioneiro, autodidata e doutor honoris causa Ferdinand
Porsche quando pensou, sentiu, concebeu e estruturou o Fusca um pouco antes de
a Alemanha ficar empobrecida pelas conseqüências de uma guerra e de uma derrota
que levaria o país a ajoelhar-se e humilhar-se perante os vencedores.
Na saga do Fusca, um de seus
momentos mais incríveis é quando, logo depois da segunda guerra e da segunda
derrota, esse veículo começa a renascer numa fábrica destruída pelos
bombardeios e, espalhando-se pelo mundo, levaria aos limites máximos a lenda
alemã, que ainda perdura em muitos setores, de ter produtos de qualidade,
resistentes, robustos e simples.
Mas uma dos pontos que mais
atrai no trabalho de Alexander Gromow, que escolheu o 22 de junho para o “Dia
Mundial do Fusca” (oficializado em junho de 1995 no célebre encontro de Fuscas
Antigos de Bad Camberg, na Alemanha, depois de uma campanha internacional entre
Fuscamaníacos de cinco continentes), é o fato de a história do Fusca soar como
uma ficção que, na verdade, está fortemente presente em nosso cotidiano.